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Colegas de turma

Ao longo da vida conhecemos pessoas, criamos e fortalecemos laços de amizades. Essas interações permitem que as relações sociais sejam construídas por meio do convívio cotidiano e da troca de experiências, contribuindo para o desenvolvimento da autonomia e da identidade dos indivíduos. 


Você sabia que parte da pessoa que se tornou/está se tornando é resultado das amizades que fez na fase escolar?

A escola é um dos ambientes mais favoráveis para a formação de grupos de amigos, uma vez que as crianças e adolescentes passam uma parte considerável do seu dia na escola. Isso se torna mais evidente quando consideramos estudantes de uma mesma turma. 

A sala de aula possibilita que os alunos socializem uns com os outros, vivenciando e compartilhando momentos por meio de atividades em grupos e tarefas de classe. Assim, os colegas de turma têm um grande potencial de influenciar um aluno. 

Como essa influência acontece?

O desempenho escolar do estudante pode ser influenciado tanto pelo desempenho quanto pelas características de seus colegas. Essa influência dos amigos tem sido denominada efeito dos pares (peers effects) e pode ser classificado como direto ou indireto. 

Sempre que as características ou comportamento de um indivíduo é afetado pelo comportamento ou características do grupo em que tal indivíduo está inserido configura-se um efeito dos pares. Considerando hipoteticamente dois alunos, João e Maria:

  1. Efeito Direto: a presença de Maria afeta o desempenho de João sem alterar o comportamento do João ou de qualquer outro aluno da classe. Maria pode responder bem às perguntas do professor, fazendo João aprender a partir das respostas dela;
  1. Efeito Indireto: Maria pode ser uma boa aluna que João quer imitar, estudando mais, ou Maria pode ser uma aluna que motiva o professor a apresentar palestras mais claras das quais João se beneficia.  

A forma como os alunos são alocados nas turmas importa?

A composição da turma vem assumindo um papel de destaque nos determinantes da performance dos alunos, sendo considerada tão importante quanto outros insumos amplamente respaldados na literatura, tais como qualidade do professor, tamanho da turma e envolvimento dos pais.

A adição de alunos de baixo, médio ou alta habilidade gera mudanças na composição da turma que podem afetar a performance dos demais estudantes. Os gestores e professores precisam dar mais atenção aos colegas de turma, pois estes são peças-chave na vida acadêmica e pessoal dos estudantes. 

O que seria melhor para o desempenho do aluno, salas de aulas com alunos mais homogêneos ou heterogêneos em termos de habilidades? 

Alguns estudos evidenciam que um nível semelhante de habilidades dos pares é benéfico para o desempenho da turma porque permite que os professores ensinem para grupos de mesmo nível. 

Uma sala de aula com mais homogeneidade permite ao professor personalizar o material e o ritmo de aprendizagem para esse grupo específico de alunos. Assim, alunos de alto/médio desempenho podem se beneficiar fortemente da exposição a uma sala com colegas de alto/médio desempenho. 

Alunos de escolas públicas podem se beneficiar em estudar em escolas particulares?

Um dos maiores gargalos que enfrentamos na área da educação atualmente é a qualidade do ensino. As diferenças de qualidade entre as redes pública e particular têm se tornado cada vez maiores e isso é refletido na performance estudantil. Historicamente, os alunos da rede particular vêm apresentando pontuações em testes escolares muito superiores aos da rede pública. 

No Enem 2019, a pontuação média na prova de matemática dos alunos da rede particular foi de 603,8 pontos enquanto para os alunos da rede pública foi de 497,9. Percebe-se que essa diferença aumenta à medida que aumenta o nível de desempenho dos alunos, como pode ser visto na figura abaixo. 

Os diferentes contextos socioeconômicos e escolares geram e retroalimentam a maior parte dessas diferenças de desempenho.

Os colegas de turma contribuem para que os alunos das escolas particulares performem melhor no Enem do que os das escolas públicas e essa importância dos pares aumenta quando analisamos os alunos de médio e alto desempenho. 

Os alunos de médio/alto desempenho da rede pública têm uma maior probabilidade de estarem expostos a colegas de turma não tão bons quanto a si próprios e isso afeta suas performances. 

Além disso, os resultados revelam que se os alunos de médio/alto desempenho da rede pública tivessem acesso às condições escolares que os alunos das escolas privadas têm (tais como a infraestrutura escolar, quadro de docentes, colegas, dentre outros), poderiam contornar as desvantagens do background socioeconômico e performarem tão bem ou melhor do que os de médio/alto desempenho das escolas particulares.

Os alunos das escolas públicas geralmente estão expostos a situações muito adversas que prejudicam a aprendizagem e rendimento escolar. Mesmo um aluno com altíssimo potencial na rede pública pode nunca ter esse potencial revelado e alcançado, seja pela falta de oportunidade a uma educação de qualidade, pela falta de interação com colegas de classe que o motive a estudar mais e desenvolva tanto as habilidades cognitivas quanto as socioemocionais ou pela falta de referência de pessoas que acreditam no sucesso por meio do estudo. 

Estamos falando de uma possível perda de capital humano para a sociedade, de diversos indivíduos que poderiam ter o seu futuro e de seus familiares totalmente transformados por meio do estudo.

Atualmente existem diversos alunos talentosos e com alto potencial nas escolas particulares de pequeno porte e nas escolas públicas que poderiam se beneficiar de estudar em escolas de maior qualidade. O contato com colegas de turma com expectativas, aspirações e motivações mais focadas poderiam contribuir para melhorar os desfechos educacionais desses indivíduos. 

Muitos gostariam de ter a oportunidade de se dedicar aos estudos sem se preocupar em abandonar a escola para trabalhar ou sem comprometer significativamente o orçamento familiar. Assim, pode estudar nas melhores escolas por um valor que cabe no bolso representa a possibilidade de novos futuros. Conheça as vantagens da lia para as famílias.

Janaína Feijó
Economista e pesquisadora do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas). Atualmente desenvolve pesquisas na área de mercado de trabalho, educação e desigualdades sociais.